Impacto – À descoberta de experiências reais que unem, desenvolvem e transformam equipas.

Num mundo cada vez mais digital, as experiências que mais importam são as que nos colocam frente a frente com a realidade e com as pessoas.

Há territórios que não devem ser vistos pelas suas vulnerabilidades, mas pelo seu potencial. Há empresas que ainda não perceberam que o impacto social mais transformador não se faz só com donativos, faz-se com presença, com escuta e com cocriação genuína.

Vivemos um paradoxo que os dados tornam cada vez mais difícil de ignorar. Nunca estivemos tão conectados e nunca nos sentimos tão sós. Segundo o relatório State of the Global Workplace 2024 da Gallup, 1 em cada 5 trabalhadores no mundo sentiu-se solitário no dia anterior à entrevista. Em Portugal, a evidência disponível sugere uma tendência semelhante, a solidão afirma-se como desafio social crescente, particularmente entre os grupos mais jovens.

A ligação digital, por mais sofisticada que seja, não substitui a experiência humana presencial. Não substitui o olhar, a conversa que acontece no silêncio entre duas frases, a sensação de partilhar um espaço físico com outra pessoa que tem uma história diferente da nossa. É exatamente esse tipo de experiência presencial, real, com propósito que está a faltar no mundo do trabalho.

É neste contexto que o lançamento de The Impact Collection, a nova plataforma de experiências de impacto social da Stravillia, a partir do Bairro do Zambujal, em parceria com a CAZAmbujal, Associação Recreativa, faz sentido não apenas como iniciativa empresarial, mas como resposta a um problema que as organizações já não podem ignorar.

O Zambujal não é um território qualquer. É o primeiro empreendimento de habitação social do mundo a assumir o papel de embaixador dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, através do Projeto Zambujal 360°, promovido pela CAZAmbujal. Um bairro que transformou as suas paredes em 17 murais que contam histórias reais da sua comunidade e que, segundo a subsecretária-geral da ONU Melissa Fleming, pode ser modelo a replicar em todo o mundo. Começar aqui não é uma escolha aleatória. É uma declaração de intenções.

Não cheguei aqui pela teoria, cheguei pela prática. No Programa Escolhas, trabalhei com projetos de inclusão social em territórios marcados pela exclusão, pela falta de oportunidades e por estigmas que as próprias comunidades carregam há gerações. Aprendi que a mudança real não acontece quando chegamos com soluções prontas. Acontece quando chegamos com perguntas certas e com a disposição de ouvir as respostas, mesmo quando são desconfortáveis.

No IPAV, através da Academia Ubuntu, acompanhei pessoas que transformaram as suas histórias de vida em ferramentas de mudança para si próprias e para os outros. Jovens de bairros periféricos que se tornaram líderes comunitários. Pessoas que encontraram, através do trabalho associativo e da educação não formal, um caminho de dignidade e de propósito. São pessoas que até hoje me inspiram pelo seu exemplo.

Esse percurso, quase vinte anos no sector social antes de entrar no mundo da sustentabilidade corporativa, é o que me permite dizer com convicção: os territórios rotulados como “vulneráveis” têm uma capacidade de inovação, de resiliência e de criação de sentido que os ambientes corporativos raramente conseguem replicar. Quando uma empresa entra num bairro como o Zambujal com humildade e vontade genuína de aprender, o que acontece é uma troca. E nessa troca, quem sai mais rico é quase sempre quem foi lá para dar.

“Os territórios frequentemente rotulados como vulneráveis têm uma capacidade de inovação e de criação de sentido que os ambientes corporativos raramente conseguem replicar.”

A maioria das empresas trata o impacto social como um capítulo do relatório de sustentabilidade. Uma lista de donativos, horas de voluntariado, parcerias com instituições. O problema não está na falta de boa vontade. Está na falta de contacto real. A sustentabilidade que vive apenas em documentos não transforma culturas organizacionais, não cria empatia, não desenvolve as competências humanas que as organizações mais precisam agora.

O trabalho remoto e híbrido trouxe flexibilidade, mas erodiu o tecido relacional das equipas. Substituiu conversas de corredor por chamadas de vídeo e almoços partilhados por mensagens de chat. O resultado é uma sensação de desconexão que não aparece nos relatórios de performance, mas que se sente todos os dias. A conexão humana não é um benefício opcional. É um fator de performance que as empresas têm sistematicamente subestimado.

Impacto que se vive, transformação que permanece

The Impact Collection não é team building com propósito decorativo. É uma plataforma desenhada para criar experiências que combinam conhecimento, formação, ação e envolvimento territorial com impacto mensurável, para as equipas que participam e para as comunidades que as acolhem. A diferença face a uma atividade convencional é a mesma diferença entre ver um documentário sobre pobreza e passar um dia a trabalhar lado a lado com quem a vive. O primeiro informa, o segundo transforma e a transformação, ao contrário da informação, fica.

Trabalhar em contextos de diversidade real desenvolve exatamente as competências que as organizações mais precisam: tolerância à ambiguidade, capacidade de comunicar através da diferença, empatia aplicada, liderança adaptativa. Estas não são competências soft. São competências estratégicas que só se desenvolvem verdadeiramente através de experiências que exigem presença, escuta e adaptação genuínas.

O Bairro do Zambujal não é aqui apresentado como beneficiário passivo. É parceiro ativo, com identidade, capacidade, cultura e futuro. Durante demasiado tempo, as iniciativas de responsabilidade social corporativa trataram as comunidades como objetos de intervenção e não como sujeitos de desenvolvimento. As empresas chegavam, faziam, fotografavam e iam embora. O território ficava igual, ou pior.

O modelo que a Stravillia está a construir com a CAZAmbujal parte de um pressuposto radicalmente diferente: o desenvolvimento socioeconómico local sustentável só acontece quando é construído de dentro para fora, com as pessoas do território e não para elas. A CAZAmbujal tem anos de trabalho no terreno, conhecimento profundo da comunidade e relações de confiança que nenhuma empresa externa consegue construir em meses. É esse conhecimento que torna as experiências do The Impact Collection genuínas e é por isso que este Projeto começa no Bairro do Zambujal, mas não termina aqui.

“O impacto social mais transformador não se faz com donativos. Faz-se com presença, com escuta e com a humildade de reconhecer que quem vive no território sabe coisas que nenhum consultor externo consegue aprender num relatório.”

A sustentabilidade social deixou de ser opcional. Não porque a regulação o exija, embora também o faça, como vemos com a CSRD (Corporate Sustainability Reporting Directive) na Europa, ou mesmo com a nova taxonomia de sustentabilidade de Cabo Verde, mas porque os vossos colaboradores o exigem, os vossos clientes o esperam, e as organizações que não criam ambientes de pertença e de propósito estão a perder talento, energia e capacidade de inovar.

The Impact Collection é uma forma de transformar a sustentabilidade de conceito em experiência, vivida no terreno, com pessoas reais, desafios reais e impacto mensurável.

Num mundo cada vez mais digital, fragmentado e solitário, criar experiências humanas com propósito e impacto real não é um luxo. É uma necessidade estratégica e começa, muitas vezes, por um bairro que a maioria das pessoas ainda não conhece, mas que tem muito para ensinar a quem tiver a coragem e a humildade de o querer visitar.

O futuro das organizações também se constrói assim, quando a estratégia encontra a comunidade de forma genuína, quando o conhecimento se transforma em ação concreta e quando o impacto se torna uma experiência que não se esquece, porque foi vivida, não apenas lida num relatório.