Por Thomas Pinto Basto, Executive Director
O verdadeiro valor das finanças sustentáveis não está no preço
Durante anos, uma pergunta dominou as discussões sobre finanças sustentáveis:
Quanto é que fica mais barato?
É uma pergunta compreensível. As decisões de financiamento são influenciadas pelo custo e, naturalmente, as empresas querem perceber se associar um empréstimo ou uma obrigação a objetivos de sustentabilidade pode reduzir a taxa de juro.
Mas, muitas vezes, essa não é a pergunta certa.
Em muitas operações, a vantagem direta em termos de preço é reduzida ou pode nem existir. Ainda assim, as empresas continuam a recorrer a financiamento sustentável, e os bancos e investidores continuam a apoiá-lo.
Porquê?
Porque o valor vai muito além do preço.
As empresas que estão a adotar soluções de financiamento sustentável fazem-no porque estas podem alargar as suas opções de financiamento, reforçar a sua credibilidade e melhorar a forma como se relacionam com bancos e investidores.
Ao mesmo tempo, o contexto de financiamento está a mudar. A sustentabilidade está a tornar-se relevante não apenas porque as empresas estão a decidir agir, mas também porque os bancos e os investidores estão a alterar a forma como avaliam o risco e alocam capital.
A regulação bancária está a evoluir – e as conversas de financiamento vão mudar com ela
Espera-se cada vez mais que os bancos identifiquem, avaliem e façam a gestão dos riscos ambientais, sociais e de governação nas suas carteiras de crédito.
As Orientações sobre a Gestão dos Riscos Ambientais, Sociais e de Governação da Autoridade Bancária Europeia, por exemplo, exigem que os bancos integrem estas matérias de forma mais sistemática nos seus processos de gestão de risco.
Isto não significa que a sustentabilidade substitua a análise de crédito. Os fluxos de caixa, o nível de endividamento, a rentabilidade, as garantias e os fundamentos do negócio continuam a ser centrais em qualquer decisão de financiamento.
Significa, sim, que os bancos terão cada vez mais de compreender de que forma os seus clientes estão expostos aos riscos de transição climática e a outros riscos relacionados com a sustentabilidade, e como esses riscos estão a ser geridos.
Para as empresas, a implicação prática é clara.
As discussões de financiamento poderão incluir, cada vez mais, questões sobre emissões, planos de transição, metas de sustentabilidade, governação, riscos operacionais e qualidade da informação disponível para os suportar.
As empresas preparadas para responder a estas questões poderão ser mais fáceis de avaliar. As que não estiverem poderão enfrentar discussões mais complexas, pedidos adicionais de informação e, potencialmente, processos de financiamento mais longos.
As finanças sustentáveis não estão, por isso, a desenvolver-se de forma isolada. Estão a surgir no contexto de uma transformação mais ampla da forma como as instituições financeiras avaliam as empresas e gerem as suas próprias carteiras.
Mais opções de financiamento – não financiamento garantido
Um dos benefícios potenciais mais claros das finanças sustentáveis é a possibilidade de envolver um leque mais alargado de financiadores.
Bancos, investidores institucionais e instituições financeiras de desenvolvimento integram cada vez mais considerações de sustentabilidade nas suas decisões de crédito e investimento. Alguns dispõem também de mandatos ou metas específicas de financiamento sustentável.
Uma estrutura de financiamento sustentável credível pode ajudar uma empresa a aceder a segmentos deste mercado que poderão ser menos acessíveis através de financiamento convencional.
Isto não significa que as finanças sustentáveis garantam o acesso a capital.
Não compensam uma fraca qualidade de crédito nem um modelo de negócio insustentável. A empresa continua a ter de demonstrar capacidade para reembolsar a dívida e cumprir as condições financeiras exigidas pelos bancos ou investidores.
O que as finanças sustentáveis podem proporcionar é maior opcionalidade: mais conversas relevantes, acesso potencial a capital especializado e uma proposta mais forte para instituições financeiras que procuram oportunidades credíveis nesta área.
Para empresas de maior dimensão, isto poderá traduzir-se num interesse mais alargado por parte de investidores, maior procura numa emissão obrigacionista ou na aproximação a instituições financeiras internacionais e de desenvolvimento.
Para pequenas e médias empresas, o canal mais imediato será, na maioria dos casos, o sistema bancário. Com o tempo, porém, informação de sustentabilidade credível e um histórico de desempenho demonstrado poderão também apoiar o acesso a fundos especializados ou a fontes alternativas de financiamento.
Os caminhos são diferentes. O valor subjacente é semelhante: mais formas de interagir com o mercado quando a empresa precisa de financiamento.
A credibilidade é importante
As empresas comunicam regularmente as suas ambições de sustentabilidade. O desafio está em demonstrar que essas ambições são relevantes para o negócio, mensuráveis e suportadas por compromissos concretos.
As finanças sustentáveis introduzem disciplina.
As empresas têm de definir objetivos claros, selecionar indicadores mensuráveis, estabelecer metas de desempenho e explicar de que forma esses compromissos se relacionam com as suas operações e prioridades mais amplas.
Estes elementos são frequentemente avaliados de forma independente através de uma Second Party Opinion – uma análise externa das credenciais de sustentabilidade e do alinhamento da estrutura de financiamento proposta com os princípios de mercado.
Essa validação independente pode funcionar como um “selo de qualidade” para as iniciativas de sustentabilidade da empresa.
Não certifica que a empresa é sustentável em todos os aspetos. Nem elimina a necessidade de investidores e bancos realizarem a sua própria análise.
Demonstra, no entanto, que os compromissos associados ao financiamento foram sujeitos a escrutínio independente e avaliados com base em princípios de mercado reconhecidos.
Isto pode reforçar a credibilidade não apenas junto das entidades financeiras, mas também de clientes, trabalhadores e outras partes interessadas que procuram perceber se os compromissos de sustentabilidade da empresa são acompanhados por ações concretas.
Uma conversa de financiamento mais relevante
As finanças sustentáveis podem também melhorar a qualidade da relação entre as empresas e os seus parceiros financeiros.
As conversas tradicionais de financiamento centram-se, naturalmente, no desempenho financeiro, na capacidade de reembolso e nas condições da operação. As finanças sustentáveis acrescentam outra dimensão: a forma como a empresa está a gerir riscos e oportunidades materiais de longo prazo.
Uma estrutura credível permite aos bancos e investidores compreender melhor a ligação entre os objetivos de negócio da empresa, as suas prioridades de sustentabilidade e o seu desempenho operacional.
Isto pode ser particularmente relevante para empresas que operam em setores ou geografias percecionados como tendo maior risco ambiental, social ou operacional.
Nestes casos, as finanças sustentáveis não substituem a análise de crédito. Podem complementá-la, demonstrando uma governação mais robusta, objetivos mais claros, maior disciplina operacional e disponibilidade para reportar publicamente o desempenho.
O resultado pode ser um diálogo mais informado e estrategicamente mais útil com as entidades financeiras.
Como se pode traduzir isto na prática
Numa operação recente, uma empresa do setor da construção e engenharia começou por explorar o financiamento sustentável com a expectativa de que o principal benefício seria obter condições de preço mais atrativas.
À medida que o processo avançou, tornou-se claro que o valor mais relevante estava noutros aspetos.
A empresa conseguiu reforçar a credibilidade da sua estratégia de sustentabilidade através de validação externa independente. A estrutura de financiamento permitiu também estabelecer uma ligação mais clara entre as prioridades do negócio, os compromissos de sustentabilidade e as necessidades de financiamento.
Isto facilitou o envolvimento com bancos e instituições financeiras internacionais, incluindo organizações que, de outra forma, poderiam não ter considerado financiar a empresa.
O valor da operação não ficou, por isso, limitado às condições financeiras.
Alargou as potenciais fontes de capital da empresa, melhorou a qualidade das discussões com as entidades financeiras e reforçou a forma como as suas iniciativas de sustentabilidade foram apresentadas ao mercado.
O que acontece se as empresas ignorarem o tema?
Ignorar as finanças sustentáveis não significa que uma empresa perca automaticamente o acesso a capital.
O financiamento convencional continuará a existir e os fundamentos tradicionais de crédito continuarão a ser decisivos.
O risco é mais gradual.
À medida que os bancos avaliam de forma mais sistemática a exposição à transição climática e a outros riscos de sustentabilidade, as empresas que não consigam fornecer informação credível poderão enfrentar processos de financiamento mais difíceis ou mais demorados.
Poderão ter de responder a pedidos de informação para os quais não estão preparadas. Poderão ter menos formas de interagir com bancos que tenham metas de financiamento sustentável ou com investidores que disponham de mandatos nesta área. Em alguns casos, concorrentes mais bem preparados poderão simplesmente ser contrapartes mais fáceis para bancos e investidores.
O principal risco é, por isso, a perda de opcionalidade de financiamento.
Nem todas as empresas precisam de recorrer já a financiamento sustentável. Algumas ainda não terão a maturidade necessária em matéria de sustentabilidade, os dados internos ou os objetivos mensuráveis exigidos. Para outras, o financiamento convencional poderá continuar a ser a solução mais adequada.
Mas as empresas que preveem recorrer a financiamento devem perceber se as finanças sustentáveis podem criar valor — e que preparação será necessária antes de o processo começar.
A pergunta relevante já não é apenas:
As finanças sustentáveis podem reduzir o nosso custo de financiamento?
É:
Podem alargar as nossas opções de financiamento, reforçar a nossa credibilidade e melhorar a forma como nos relacionamos com os financiadores?
Antes da próxima discussão de financiamento, considere três perguntas:
- A sua empresa está preparada para fornecer a informação de sustentabilidade que os bancos esperam cada vez mais receber?
- O seu próximo financiamento poderia beneficiar de uma estrutura credível de financiamento sustentável?
- Está a antecipar a evolução do contexto de financiamento e a construir essa opcionalidade desde já?





