Por Graciete Silva, Head of Knowledge
Uma década depois, os ODS precisam ir além dos quadradinhos coloridos nos relatórios. Precisam que a intenção se converta em impacto, e que os modelos de negócio estejam dispostos a mudar.
Em junho e julho de 2026 foram publicados dois dos principais balanços anuais dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): o Sustainable Development Report, da rede SDSN, e o relatório oficial das Nações Unidas. Com metodologias diferentes, ambos convergem no diagnóstico: não estamos no rumo certo.
Algumas semanas depois, tenho estado à procura do buzz que estes números deviam ter gerado. Encontrei muito menos do que esperava. Essa ausência inquieta-me tanto quanto os próprios números, e é dela que parte a pergunta com que inicio esta reflexão.
Um tema que saiu de moda, mas não da realidade
Os números dão que pensar. A SDSN estima que apenas 16,5% das metas estão no rumo certo para serem alcançadas em 2030. No relatório das Nações Unidas, das 139 metas para as quais existem tendências históricas fiáveis, 15% encontram-se abaixo dos níveis de 2015 e quase metade avança demasiado lentamente.
Há uma década, os ODS ganharam uma presença difícil de ignorar. Com mérito, ofereceram uma linguagem e uma direção comuns a governos, empresas e sociedade civil. Construiu-se em torno deles um argumento económico forte: em 2017, a Business & Sustainable Development Commission, co-fundada por Mark Malloch-Brown e Paul Polman, identificou 60 oportunidades de mercado em quatro sistemas económicos, que poderiam gerar pelo menos 12 biliões de dólares em receitas e poupanças até 2030. Era uma estimativa mobilizadora: apresentava os ODS não apenas como um apelo ético, mas como uma oportunidade económica. Faltam quatro anos para 2030 e não encontrei, até agora, uma avaliação comparável que permita perceber quanto desse potencial se materializou.
Na minha experiência, a linguagem dos ODS tem vindo a perder visibilidade no debate empresarial. Será por o tema ter perdido impulso? Por nos aproximarmos da data de conclusão dos ODS e se instalar a sensação de um prazo falhado? Pela fragmentação geopolítica e receio de escrutínio? Ou terá a própria sustentabilidade perdido centralidade no discurso empresarial?
Quando a obrigação recua
Quando o primeiro pacote Omnibus de sustentabilidade – parte de um esforço europeu mais vasto de simplificação regulatória – começou a estreitar o âmbito da CSRD, a diretiva que obriga as grandes empresas a reportar informação de sustentabilidade, muitas das que esperavam vir a ser abrangidas entraram num compasso de espera. À medida que o quadro se tornou mais claro e várias perceberam que ficariam fora do âmbito, vi algumas reduzir ou interromper iniciativas, como se a razão para agir tivesse desaparecido com a obrigação legal.
A regulação pode acelerar, orientar e tornar comparável a ação. Mas nunca foi a única razão para agir. Gerir impactos, riscos e oportunidades faz parte de uma gestão responsável. Prestar contas às partes interessadas é também uma questão de posicionamento, competitividade e licença social para operar. A regulação tornou estas responsabilidades mais visíveis e comparáveis; não as criou, nem as elimina quando recua.
E o contexto que as torna necessárias não abrandou. Num quadro de guerras, choques económicos e emergências sucessivas, os desafios traduzidos pelos ODS persistem e, em vários domínios, agravaram-se. Houve progresso desde 2015, mas não à velocidade necessária para compensar a deterioração do contexto. É precisamente quando o enquadramento regulatório hesita que o papel das empresas se torna mais visível, e mais incómodo. Enquanto motor de crescimento, de emprego e de inovação, é nelas que uma parte decisiva da resposta terá de acontecer. Mas o recuo que descrevi mostra o reverso: enquanto a ação depender sobretudo da obrigação de reportar, ela recuará sempre que essa obrigação recuar. A questão não é se as empresas têm um papel, é se o assumem quando ninguém as obriga.
Em Portugal, o retrato tem luz e sombra. Do lado da luz, cerca de 52% dos indicadores avaliados pelo SDR 2026 estão no rumo certo para 2030 ou mantêm resultados já alcançados. Do lado da sombra, quase metade não está: cerca de 18% apresentam uma tendência de agravamento, cerca de 21% estão estagnados e cerca de 10% melhoram apenas moderadamente, a um ritmo insuficiente para cumprir o prazo.
Quanto ao contexto empresarial nacional, no quarto ano do Observatório dos ODS nas Empresas Portuguesas, da Católica-Lisbon, 80,3% das grandes empresas continuam a reconhecer nos ODS uma oportunidade de negócio. A oportunidade, dizem, existe. Mas ao longo de quatro anos as barreiras que apontam à sua concretização mantêm-se praticamente inalteradas: a falta de conhecimento sobre como operacionalizar os ODS e a perceção de que estão demasiado distantes da linguagem empresarial. E o próprio Observatório descreve o que encontra: as empresas recorrem aos ODS como quadro de referência conceptual e comunicacional, utilizado sobretudo a posteriori para enquadrar práticas já em curso, numa ligação frequentemente superficial que não constitui, na maioria dos casos, um motor estratégico.
Parte desta dificuldade tem raiz no facto dos ODS terem sido negociados e adotados pelos Estados e estarem estruturados, em grande medida, como metas de política pública. A Agenda 2030 atribui, no entanto, um papel explícito às empresas, reconhecendo a atividade empresarial, o investimento e a inovação como motores de produtividade, de crescimento inclusivo e de criação de emprego. O que não existe, para o setor privado, é uma obrigação autónoma de reportar o contributo para cada ODS. As ESRS, as normas europeias que detalham o que as empresas devem reportar sobre sustentabilidade, exigem informação sobre impactos, riscos e oportunidades materiais; a correspondência dessa informação com os ODS não constitui uma obrigação específica das normas. Cabe assim a cada organização traduzir uma agenda global para o seu contexto, os seus impactos e as suas decisões. Esse exercício não é totalmente objetivo nem uniformizado, mas também não pode reduzir-se a uma seleção dos ODS mais convenientes.
Do mapeamento passivo à reinvenção do negócio
Mais de uma década de sensibilização e formação produziu muitas empresas que sabem o que são os ODS, sabem por que importam e sabem incluí-los no relatório. Falta o passo seguinte: transformar conhecimento em mobilização.
No acompanhamento que faço de relatórios e estratégias de empresas, instituições de ensino superior e outras organizações, encontro frequentemente exercícios de mapeamento passivo: identificar os ODS para os quais a atividade já contribui, assinalá-los no relatório e ilustrá-los com os respetivos quadradinhos coloridos. Vejo intenção e esforço, muitas vezes orientados para a eficiência e a redução de custos. Mas reportar não é transformar. Em muitos casos, fez-se um primeiro mapeamento e não se voltou a ele: não foi revisto, não foi convertido em prioridades, investimento ou decisões.
Falta a pergunta decisiva: que produtos, soluções e mercados podem nascer quando os ODS deixam de ser usados como uma grelha para classificar o que a empresa já faz e passam a ser lidos como um mapa de necessidades ainda por responder?
Como sintetizou Antoine de Saint-Affrique, CEO da Danone, a sustentabilidade sem desempenho não tem impacto, e o desempenho sem sustentabilidade não tem futuro. Uma coisa não dispensa a outra, mas também não se confunde com ela. E uma parte das empresas continua a tratar os ODS na lógica da responsabilidade social, ao lado do negócio, e não dentro dele. E isso não chega.
O mapeamento é um primeiro passo, e um primeiro passo com mérito. Mas repetido sem avançar não chega para transformar, para passar da intenção à ação e ao impacto.
E, no entanto, não é assim em todo o lado. Importa dizê-lo, porque a leitura apenas negativa seria injusta e pouco útil. Há empresas, também em Portugal, a mover a sustentabilidade para dentro do modelo de negócio, conforme documenta o Observatório dos ODS, e é aí que a diferença se vê. Reinvenção não é uma abstração. É uma empresa que decide que o seu produto passa a ser a alternativa que substitui o material poluente ou que trata a economia circular como princípio do negócio, e não como um programa à parte. É uma organização que entra num negócio que não tinha, porque leu numa necessidade ambiental e/ou social um mercado por servir. É a pergunta, feita com seriedade, sobre que parte do que a empresa vende ou presta poderia existir de outra forma, ou deixar de existir. Na minha experiência, estes movimentos são menos frequentes do que a leitura dos relatórios poderá sugerir, e muito mais exigentes do que produzir um capítulo de sustentabilidade. Mas existem, e mostram que a alternativa à inércia não é teórica. O desafio será transformar estas experiências pontuais em práticas sistemáticas de inovação, investimento e gestão.
Coragem para os meios
Terá sido, então, uma década perdida? Os números dizem que não. Num dos webinars da série What Comes After 2030?, da Católica-Lisbon, uma iniciativa que veio dar foco a uma pergunta que eu própria andava a fazer-me sobre o que vem a seguir, Sherif H. Kamel, Dean da School of Business da American University in Cairo, deixou uma observação que vale a pena reter: se não tivéssemos definido os ODS, o mundo estaria hoje, muito provavelmente, pior. O balanço das Nações Unidas documenta-o: pela primeira vez, a proteção social cobre mais de metade da população mundial; a eletricidade chega a 92% das pessoas; o acesso à internet aumentou de 40% para 74% desde 2015; e a mortalidade associada a catástrofes diminuiu 65% face à década anterior. Como escreve António Guterres, o progresso acontece quando a vontade política, o investimento, a inovação e a cooperação internacional se conjugam.
E aqui as empresas não são meras coadjuvantes. Uma das oito lições que a SDSN retira da última década di-lo com clareza: a escala da ação é regional e local, não apenas nacional. É nas cidades, nas regiões e nas cadeias de valor concretas que a transformação acontece, ou não acontece. O velho princípio de pensar globalmente e agir localmente mantém-se exato, e devolve às empresas, e aos territórios onde operam e de que são um dos agentes, uma responsabilidade que os relatórios internacionais, dirigidos aos Estados, tendem a deixar implícita.
A preparação do debate pós-2030 já começou, e as discussões formais nas Nações Unidas deverão arrancar em 2027. Ainda não se sabe que forma assumirá a próxima agenda, num momento em que o multilateralismo está enfraquecido e em que gigantes como os Estados Unidos se afastam. Ainda assim, o tema continua a merecer consenso: das resoluções da Assembleia Geral de 2025 que referem o desenvolvimento sustentável, a esmagadora maioria foi aprovada com apoio quase unânime, tendo os Estados Unidos votado contra em quase todos os casos e a Argentina em muitos deles. E as empresas não precisam de esperar por essa definição para rever a forma como criam valor.
Volto, para terminar, às palavras que Paul Polman deixou no SDG Business Forum de 2019 e que, confesso, continuam a arrepiar-me sempre que o revejo. Não precisamos de mais estudos nem de ir a Marte à procura de respostas, dizia ele. Precisamos de vontade. E quem tem água, casa, educação e saúde “ganhou a lotaria da vida”, o que traz responsabilidade para com os outros. Sete anos depois, o discurso mantém-se atual. Como se lê no relatório da SDSN, desejar um objetivo sem assumir os meios necessários é exprimir um desejo, não um compromisso. O princípio é válido para os Estados, mas também para as empresas: as condições de governação e os incentivos importam, mas a sua falta não desobriga ninguém de escolher.
Ao fim de uma década, e com prazos que se aproximam sem estarem cumpridos, é legítimo perguntar para quê continuar. A resposta, para mim, é clara: a agenda não perde validade em 2030. O que se esgotou foi a utilização dos ODS como simples rótulo para classificar aquilo que as organizações já fazem. A agenda continuará a exigir empresas, academia, sociedade civil e, naturalmente, os Estados. Não porque todos os seus objetivos tenham sido cumpridos – até ver não o foram, e provavelmente não o serão –, mas porque as necessidades a que procura responder não desaparecem quando termina o prazo. E é precisamente por alguns hesitarem que quem fica não pode desistir.
A ambição dos ODS é hoje mais urgente do que era em 2015, e o adiamento da ação continuará a acumular custos ambientais, sociais e económicos. Para uma empresa, cuidar não é apenas escolher os quadradinhos certos para o relatório. É rever prioridades, investir em soluções para necessidades ainda não respondidas e aceitar mudar o que cria impacto negativo. É, sobretudo, fazer dos ODS um ponto de partida para inovar, e não um destino a assinalar no relatório. É aí que a pergunta de Polman deixa de ser retórica: do we really care?




