O futuro do relato de sustentabilidade na Europa: do ruído à maturidade

Encerrou no início de Junho de 2026 a consulta pública da Comissão Europeia às ESRS revistas e à Norma de utilização voluntária. Espera-se que a Comissão adote os atos delegados ainda durante Junho. Recentemente, em Bruxelas, a EFRAG celebrou 25 anos de atividade, sob o tema da liderança da próxima era do relato corporativo. São três marcos que, juntos, assinalam o fim de um ciclo — e o começo de outro.

Depois de mais de um ano de ruído — o Pacote Omnibus de simplificação, os recuos no âmbito de aplicação, as especulações sobre o eventual fim da dupla materialidade —, esperamos finalmente alguma estabilidade, provavelmente já depois do verão. Mas convém não confundir estabilidade com desfecho. A estabilidade não encerra o tema. Abre o terreno para o que se segue.

Estabilidade: uma transição ainda desigual

Para as empresas que permanecem no âmbito da CSRD, a adoção das Normas ESRS revistas deverá trazer a clareza necessária para planear. Há, ainda assim, um período de sobreposição transitória a gerir, que poderá dificultar a comparabilidade entre empresas: o exercício de 2026 poderá ser híbrido entre as empresas da wave 1, com umas a manter as Normas originais, outras a antecipar as revistas, possibilidade prevista no projeto de ato delegado. As empresas da wave 2, recorde-se, só relatam pela primeira vez em 2028, sobre o exercício de 2027 — já sob as Normas revistas. E, em Portugal, acresce a circunstância de a própria CSRD ainda não ter sido transposta para o direito nacional — pelo que a transposição, quando ocorrer, deverá considerar as alterações introduzidas pela Omnibus, cujo prazo se estende até 2027.

Há, porém, duas zonas de incerteza. A primeira são as empresas de média dimensão que saíram do âmbito obrigatório e que rumo vão tomar. A segunda são as mais pequenas, perante a Norma Voluntária (VS, que tem por base a anterior VSME). Em ambos os casos, temos assistido a uma postura de wait and see. A Norma Voluntária pode ser o ponto de partida para as empresas menores e que ainda não reportam sustentabilidade. Diria, porém, que dificilmente é o destino certo para empresas com 500 ou mais trabalhadores e ambições de crescimento — e especialmente aquelas que já começaram a relatar sustentabilidade com base em normativos reconhecidos internacionalmente ou mesmo preparando o alinhamento com as Normas ESRS.

Outra questão em aberto — e assinalo-a como reflexão, não como previsão — é o rumo destas empresas fora do perímetro obrigatório. A saída pode não significar recuo, mas deslocação: continuam a trabalhar os temas internamente, deixando de os divulgar de forma estruturada — o que tende a transferir a procura de informação para a interação direta com o setor financeiro, que a solicita caso a caso. Uma fragmentação que pode revelar-se mais onerosa do que um relato estruturado único — uma sobrecarga distinta daquela que a simplificação procurou aliviar. Na Conferência da EFRAG, foi sublinhado que a procura de dados comparáveis e de qualidade não diminui com a simplificação; pelo contrário, tende a aumentar, à medida que a sustentabilidade se incorpora nas decisões de investimento e nas práticas de financiamento. Para estas empresas, o relato voluntário — feito de forma estruturada e adaptada à sua realidade — é a oportunidade de agir por escolha própria, e não por imposição, e de se diferenciar no mercado.

Dupla materialidade: a lente de gestão

Apesar de algum ruído e alarmismo recentes — sobretudo a ideia, repetida durante o processo de simplificação, de que a Europa acabaria por convergir para a materialidade financeira única do ISSB e abandonar a dupla materialidade —, esta mantém-se no coração do relato. E ainda bem: é precisamente na dupla perspetiva que reside a sua virtude. A materialidade de impacto pergunta como a empresa afeta o mundo; a materialidade financeira pergunta como o mundo afeta a empresa. Não são duas visões separadas — são a mesma realidade vista dos dois lados. Muitos dos impactos de hoje são os riscos financeiros de amanhã: dependência de recursos escassos, exposição a riscos climáticos, pressão sobre cadeias de valor ou erosão da licença social para operar. Quem olha apenas para um lado fica cego à origem dos seus próprios riscos.

Vista assim, a dupla materialidade não é um requisito de relato — é uma lente de antecipação e gestão de risco. Obriga as organizações a olhar para fora, para dentro e para a frente, tornando-as mais resilientes. E não se trata de uma singularidade europeia, conforme sublinhado na Conferência da EFRAG: à medida que mais jurisdições introduzem exigências de relato, várias têm vindo a adotar também a lógica da dupla materialidade — sinal de que a Europa está à frente de uma direção que outros seguem, e não isolada nela.

A minha convicção é de que o valor deste exercício não pertence apenas às grandes empresas, nem depende da granularidade prevista nas ESRS. Uma empresa mais pequena que se interrogue, de forma proporcional à sua dimensão, sobre onde é vulnerável e onde gera impacto está a gerir-se bem. Mantém-se o raciocínio, ajusta-se a profundidade.

A dupla materialidade, à escala certa, é bom senso de gestão: protege quem a faz dos riscos que não via e mostra-lhe onde pode criar valor de forma duradoura.

Conectividade e interoperabilidade: a próxima fronteira

Se a fase anterior foi a de pôr o relato de sustentabilidade de pé, e contamos já com dois anos de relato de acordo com as ESRS, o próximo desafio passa pela conectividade da informação (ver Discussion Paper emitido pela EFRAG, em consulta até [GS4] 30/06), i.e. integrar informação, pressupostos e dados-chave entre o relato de sustentabilidade e o relato financeiro — sem os fundir num documento único, mas tornando visíveis as ligações que hoje ficam implícitas. As duas perspetivas não se substituem: respondem a audiências e horizontes diferentes, e é isso que as torna complementares — vistas em conjunto, dão um retrato mais completo do que qualquer uma delas isoladamente.

Na prática, é uma das áreas mais imaturas. Informação financeira e de sustentabilidade continuam, muitas vezes, a viver nas empresas de forma isolada, com ligações feitas apenas no momento de fechar o relatório. A conectividade não começa no relatório, começa por dentro: nos sistemas, nos processos, na governança e na disciplina com que a informação é produzida e validada a cada ciclo.

A par disto, a interoperabilidade com as IFRS S1 e S2 — um objetivo que a versão revista das ESRS veio reforçar — tem vindo a ganhar tração. Para empresas que procuram financiamento, investidores internacionais ou integração em cadeias de valor globais, esta convergência deixou de ser apenas técnica: passou a ser competitiva.

Permanece, ainda assim, uma dificuldade reconhecida: a produção de informação sobre os efeitos financeiros previstos da sustentabilidade — fundamental para os investidores e dos mais exigentes de gerar. Ao contrário da maior parte da informação financeira, que assenta em factos já ocorridos, os efeitos financeiros previstos exigem projetar o futuro — e fazê-lo sem metodologia padronizada é genuinamente difícil. A revisão das Normas respondeu sobretudo por via de reliefs e de um phase-in alargado, que adia para 2030 a divulgação quantitativa destes efeitos pelas empresas da wave 1, e a própria EFRAG sinalizou que prepara material educativo sobre a sua quantificação, o que se aguarda com expetativa.

Inteligência artificial: a tecnologia acelera, a responsabilidade mantém-se

A inteligência artificial é, hoje, tema incontornável — e o relato de sustentabilidade é terreno fértil. A informação de sustentabilidade depende, em grande medida, de dados heterogéneos, pouco estruturados (pelo menos quando comparados com a maturidade da informação financeira) e dispersos por cadeias de valor complexas, assentando em processos repetitivos e consumidores de tempo. É aqui que a IA promete maiores ganhos: recolher, organizar, comparar e ligar informação narrativa a dados quantitativos.

A questão decisiva, porém, não é produzir respostas — é termos confiança nelas. A IA é probabilística:pode acelerar processos, mas exige controlo — validação por especialistas, rastreabilidade das sugestões e transparência sobre as ferramentas utilizadas.

Para as empresas, isto desloca o esforço do fazer para o governar. Para quem presta consultoria, a transformação é da mesma natureza: o valor desloca-se da produção de conteúdo para o desenho de controlos e para a revisão da robustez do que a máquina sugere. A IA não substitui a função de relato — reorganiza-a em torno da supervisão, mantendo a responsabilidade humana pelo output final.

Entre as questões atualmente em discussão saliento: se a IA consegue ler e localizar informação diretamente no relato, qual o papel futuro da etiquetagem digital? A marcação estruturada garante comparabilidade e legibilidade-máquina deterministas — precisamente a propriedade que à IA falta. Mais provável é que se complementem do que se substituam, mas o equilíbrio entre ambas é ainda terreno por definir.

O relato: ferramenta, não finalidade

O relato de sustentabilidade é, antes de tudo, um processo — e um processo estratégico. É uma forma de perceber onde o modelo de negócio é vulnerável, onde pode ser mais eficiente e onde pode ser genuinamente diferenciador. É também um exercício de accountability: prestar contas, de forma comparável e fiável, a quem tem interesse legítimo em compreender como as empresas criam, preservam ou erodem valor.

O seu propósito é ajudar os mercados a funcionar melhor, apoiar decisões e reforçar a confiança. Como sublinhou a Comissária Maria Luís Albuquerque no encerramento da conferência da EFRAG, a qualidade de um quadro de relato não se mede pelo número de pontos de dados que gera, mas pela capacidade de produzir informação relevante, fiável e útil. É uma formulação simples e que reorienta toda a discussão.

É também aqui que a prática se afasta com frequência da intenção. Na nossa experiência, é comum ver organizações a dedicar a maior parte do ciclo à produção do relato — recolha, consolidação, redação — e muito menos àquilo que dele deveria resultar: a leitura dos riscos; a decisão; a ação. O esforço concentra-se no documento, quando deveria concentrar-se no que o documento permite compreender e transformar.

Inverter esta pirâmide não é um exercício retórico. Depende de condições concretas: processos de governance que integrem a sustentabilidade nos circuitos de decisão; equipas interdisciplinares capacitadas; o apoio da tecnologia, com a IA a aliviar a carga repetitiva; e estabilidade regulatória que permita, finalmente, consolidar o processo em vez de o reconstruir a cada ciclo.

Visto assim, o relato deixa de ser um centro de custo. O custo existe — mas o que dele se extrai é insight sobre o negócio, credibilidade junto de quem financia e contrata, como também junto de quem nela trabalha e das comunidades em que opera, e reputação construída sobre informação verificável. O custo do relato é real. A ausência de visão sobre os próprios riscos é mais cara.

Sustentabilidade: o que sobrevive à simplificação

A Omnibus alterou o perímetro de quem é obrigado a relatar. Não alterou o essencial: cada empresa tem capacidade real de fazer a diferença onde as suas competências se alinham genuinamente com necessidades sociais ou ambientais. É aí que o impacto é credível, mensurável e duradouro. É aí que o negócio e a sociedade se encontram.

Agora que o quadro estabiliza, a responsabilidade desloca-se do regulador para cada uma das organizações. Porque a sustentabilidade que sobrevive a uma simplificação regulatória é, no fim, aquela que nunca dependeu apenas da regulação para existir.

Resta a pergunta que cada empresa terá de responder por si: agora que o quadro passa a ser estável e a obrigação legal, para muitas, deixou de existir — o que escolhe fazer com aquilo que sabe sobre o seu próprio negócio?

Nota: No espírito do que aqui defendo — transparência sobre as ferramentas e responsabilidade humana pelo resultado —, recorri a IA como apoio à pesquisa e à redação deste artigo. A tese, a análise, a verificação das fontes e o juízo são meus.